quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Me admirava ver as outras aves, sempre em bandos. Tentei me juntar a vários grupos, mas minhas asas me pareciam pesadas ou leves demais. Minhas penas, escondidas pelo sebo de tanto voar, não eram iguais as das outras. Podia voar, dormir e até caçar como eles. Mas nunca me parecia suficiente. Vivi com pombas, calopsitas e até falcões. Mas suas caças, tão instintivas, não acendiam meu desejo. Até senti prazer com algumas carnes que conquistava, mas sabia que não era esse tipo de pássaro. Não sabia o que era, aliás. Me via como uma andorinha fora do ninho. Tentando alçar vôo. Como uma loba solitária, filha dos ventos. Até que fui presa em cativeiro. Lá não haviam outros pios para me atentar ao predador. Não havia sequer predador. Só eu. E enjaulada nas paredes frias de vidro, vi meu reflexo. Não era nada como outras espécies. Tampouco como me imaginava. Estava cega quando me via nas águas dos rios? Estava alucinando naquele claustro? Seria aquela forte criatura uma amiga imaginária? De tantas perguntas, enlouqueci. A falta de grãos e carcaças me tornou frágil. Já não suportava mais a dor da minha existência, ínfima e vazia, naquela caixa imunda. Até que um dia dormi. Ou como diriam os estranhos humanos: havia morrido. Mas ainda estava lá. O pó, que antes materializava meu corpo, agora estava empilhado no canto em que havia deitado, quando ainda estava dentro de mim. E enquanto fui pó, voei como nunca antes. Fluida e visceral, vi os mares, a luz, as flores, os risos e os amores. Quando achei que já havia visto de tudo, algo me chamou de volta a caixa. Meus restos pulsavam por mim, e uma agonia tomou conta da minha energia liberta. Não sei se como aura, espírito, alma ou simplesmente ser, mas sei que voltei ao lugar onde minha vida terrena havia terminado. E algo me chamou a atenção. A caixa já não estava parada. A poeira que outrora me formava movia-se como fogo, flamejava ao som do canto da liberdade. De repente voltei a vida. E então tudo me pareceu muito simples. Não sou pássaro, sou fênix. A caixa sumiu e fui. Fui chama, fui intensa, fui fluida e fui vida.
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