quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O espelho

Eu usava meu robe floral, que agora não cheirava a rosas. Meu cabelo estava tão bagunçado quanto meus sentimentos. As lágrimas que escorriam pelas minhas faces rubras não tinham dono, não sabiam porque irrigavam minha pele seca e cansada, apenas estavam lá como uma cachoeira. Minhas unhas roídas roçavam o colo do meu peito, pendendo de mãos trêmulas e magras, com marcas permanentes de descuido. Finalmente ergui o queixo e dei um passo, que não só significava um movimento naquele quarto de motel barato, mas sim uma mudança em tudo na minha vida. Acabei na frente do espelho, e olhei no fundo dos meus olhos. Nem com a luz do abajur pastel eles tinham algum brilho. Dentro daquele castanho, não havia um relance de brilho. Tentei secar suavemente as lágrimas e forçar um sorriso, com o batom vermelho borrado que havia passado nos meus lábios finos, esperando por algo. Não sei o que esperava, exatamente. Talvez você, talvez algum estranho num bar que me oferecesse uma bebida e ocasionalmente me chamasse de ''linda''. Talvez precisasse reviver o passado, e talvez o certo seria deixá-lo lá, onde ele ficou, dentro de uma caixa, ou num porta-retrato, onde eu sorria sem fazer o mínimo esforço. Então meu olhar se voltou a mesinha de centro, onde eu derramei a caixa de remédios que tomei. Já sabia que aquela seria a minha última noite respirando, com sangue correndo pelas minhas veias, então vesti meu vestido marrom, o seu favorito, e parti. Segurei uma foto do nosso casamento, e então deitei.