segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Pútrido
Pútrido. Negro e mórbido, meu coração pulsa lentamente, como quem sussurra por ajuda. Minhas veias carregam seu nome, -seu venenoso nome-, adoecendo todo o meu corpo. Usei-te como uma rocha por todos esses anos, mas agora essa rocha é jogada contra mim, e as feridas que me causa escorrem todas as nossas memórias -o isqueiro que me ofereceu e nos introduziu, o sofá onde nos apaixonamos, a praça na qual nos beijamos pela primeira vez e a cama onde nos desapaixonamos-. Vomitei palavras, sangrei memórias, rasguei a foto do nosso primeiro aniversário de namoro. E mesmo com tudo isso, seu nome corria nas minhas veias e infectava meu cérebro. Meu coração necrosou de tanto amar.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
O espelho
Eu usava meu robe floral, que agora não cheirava a rosas. Meu cabelo estava tão bagunçado quanto meus sentimentos. As lágrimas que escorriam pelas minhas faces rubras não tinham dono, não sabiam porque irrigavam minha pele seca e cansada, apenas estavam lá como uma cachoeira. Minhas unhas roídas roçavam o colo do meu peito, pendendo de mãos trêmulas e magras, com marcas permanentes de descuido. Finalmente ergui o queixo e dei um passo, que não só significava um movimento naquele quarto de motel barato, mas sim uma mudança em tudo na minha vida. Acabei na frente do espelho, e olhei no fundo dos meus olhos. Nem com a luz do abajur pastel eles tinham algum brilho. Dentro daquele castanho, não havia um relance de brilho. Tentei secar suavemente as lágrimas e forçar um sorriso, com o batom vermelho borrado que havia passado nos meus lábios finos, esperando por algo. Não sei o que esperava, exatamente. Talvez você, talvez algum estranho num bar que me oferecesse uma bebida e ocasionalmente me chamasse de ''linda''. Talvez precisasse reviver o passado, e talvez o certo seria deixá-lo lá, onde ele ficou, dentro de uma caixa, ou num porta-retrato, onde eu sorria sem fazer o mínimo esforço. Então meu olhar se voltou a mesinha de centro, onde eu derramei a caixa de remédios que tomei. Já sabia que aquela seria a minha última noite respirando, com sangue correndo pelas minhas veias, então vesti meu vestido marrom, o seu favorito, e parti. Segurei uma foto do nosso casamento, e então deitei.
domingo, 24 de junho de 2012
Sereia
''Não sei de onde vim nem para onde vou'' disse a moça, entre uma tragada e outra. Já havia manchado seu cigarro com o batom barato que pintava seus lábios carnudos, mas também não se lembrava como isso aconteceu. As memórias vinham em flashes, atingindo-a como socos no estômago. E pelo visto, ela levou alguma memória da noite passada ao pé da letra, porque agora o meio fio de copacabana estava sujo de vômito. O cheiro de cachaça subiu no ar, e dessa vez, ela vomitou palavras. Não falava com ninguém. Nesse horário, nesse exato ponto da rua, tudo estava deserto. Mas ela estava lá. E suas histórias a acompanhavam.
A alça do seu vestido vermelho caía, quase em sincronia com as lágrimas. As mãos tremidas da moça ajeitaram seu cabelo, vestido e sapato. Mas o semblante continuava perdido. Os olhos ainda se mexiam de um lado para o outro, sem saber que rumo tomar. Mesmo assim, ela caminhou. Sem direção, ela cambaleava. Caminhou e caminhou. O tempo passava e finalmente ela decidiu aonde ir. Olhou para o mar e seus olhos azuis celeste se derreteram, seu cabelo refletiu o luar e deixou os problemas aqui, no banco de uma praça qualquer. Talvez fiquem aí para sempre. Talvez ela volte para pegar. Ou talvez eles se dividam entre vários pedacinhos e você pegue um pouco.
domingo, 20 de maio de 2012
Acordei nos seus braços quentes, ninando-me como a uma criança. Seus passos eram leves para não me despertar. Mas minha respiração de repente tomou um nível mais elevado, e logo você notou. Debaixo do capuz negro que você levava, vi de relance um tom de surpresa. O susto foi tão grande que eu quase caí dos seus braços. Um sussurro saiu dos seus lábios, secos de tanto calarem-se: Normalmente as almas não despertam quando as recolho, é um trabalho bastante solitário.
Então percebi tudo. Os frascos de remédios e a garrafa de vodka, vazios, largados no chão. Meu corpo inerte, com olhos e boca abertos. E pendendo da minha mão, um bilhete de despedida, marcado com meu querido batom vermelho e irrigado a lágrimas.
Eu estava nos braços da morte.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Seu corpo ficou desenhado no meu edredom. A marca das suas unhas ainda latejam nas minhas costas, e o cheiro do seu suor continua nas minhas coxas. A paixão queima junto ao sol que entra na janela. Abro meus olhos devagar e me lembro de ontem à noite. A sua doçura escorrendo nos beijos que desciam por todo o meu colo; Seus olhos, cravejados por olheiras, fixados no meu prazer; Nossas veias se misturando; As bitucas de cigarro, caindo levemente no cinzeiro; Seu corpo sendo despejado no meu. Abro os olhos de novo e vejo que você não está mais. No canto da cama, um bilhete com sua letra rasurada. ''Perdão.''. E então minha visão fica borrada de lágrimas, escorrendo nas minhas bochechas exaustas de tanto sorrir quando estava aqui. A solidão me abraça, e sussurra: Isso é o que sempre acontece. Por que tu esperastes algo diferente?
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