quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Beatriz

Suas palavras açucaradas deslizam de seus lábios rosados e se evaporam na fumaça de carros. Ela está sentada na varanda, de saia florida e óculos retrô. Seus cabelos loiros são levados pelo vento, e acariciam suas faces rubras. Raios de sol evidenciam-se, tímidos, pela cerejeira na qual a garota se abriga. Abriga não só ao seu corpo, mas sim a pensamentos. Ideias confusas, vindo em um turbilhão por segundo. Com um lápis na mão, começa a fazer arte. Um ponto, um suspiro. Uma linha surge na folha de papel, e com ela, oportunidades.Chances agridoces, malícias subliminares e sorrisos brincalhões. Logo, mais e mais linhas são marcadas à tinta, e com aquarela, a vida de Beatriz é pintada, com uma pitada de mel. Mel, cor dos seus olhos, carregando um semblante pensativo. A mente dela está nas nuvens, e as estrelas estão no seu coração. Finalmente no seu rosto belo estampou-se uma certeza, marcada por feições suaves e determinadas. Uma epifania veio à mente da menina-mulher e, como se nada houvesse acontecido, amassou o papel colorido que levava nas mãos e o jogou longe. Percebeu que sua vida não tinha história. Mal havia começado, e não há de terminar tão cedo.

Esse texto foi inspirado em alguém real, perfeita em cada mínima falha. Minha Bia. Com açúcar, com afeto, te dedico esse texto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O fim.

A ambivalência causou um curto circuito no seu corpo jovem, e as cicatrizes de duas décadas intensas trituraram os frágeis ossos que viviam por trás da pele pálida e seca. Ao tentar esconder o que sentia, Alice acabou criando um labirinto na sua mente, invendável até para ela própria. Unhas roídas, cabelos emaranhados e olheiras destacando-se na base de olhos azuis exaustos. O retrato de uma vida terminada antes mesmo de começar. Uma faca pendia das mãos trêmulas da mulher, e na medida em que as vozes na sua cabeça aumentavam, mais a lâmina se aproximava do seu coração. Um sorriso estampou-se na face cansada de Alice, e num último suspiro, sentiu seu peito sendo perfurado. E então, ela caiu. Como vilã e mocinha, assassina e vítima.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sutilmente intensa.
Com seus lábios ressecados, Valerie cuspia palavras ao vento. Pisava nas cinzas do seu cigarro, e depois se preparava para pisar em suas próprias emoções. Seu coração congelou com o tempo, todos os sentimentos foram guardados numa caixa e jogados à alto mar. Seus cabelo negros escondiam segredos tão obscuros quanto a natureza daquela jovem, dona de belos olhos verdes. Melodias suaves não a comoviam, filmes de drama não arrancavam sequer uma reação em sua alma. A única coisa que a fazia se sentir viva era a dor. E, ah, que dor deliciosa. Gemidos abafados se derretendo antes de chegar à ponta da língua, a adrenalinda borbulhando na corrente sanguínea, os cabelos da nuca se ouriçando lentamente. Lágrimas de prazer escorrendo nas suas bochechas suadas, criando a fórmula perfeita para o êxtase. Momentos carregados com um turbilhão de emoções, o calor da pele misturado ao ardor da mente. Todos os elementos virando um só. Invencível e frágil. Agridoce.
Era assim que Valerie gostava de viver, ignorando as regras e procurando epifanias no prazer masoquista. Todo dia ao acordar, encontrava um homem ou uma mulher diferente na sua cama, com cheiro de álcool e pecado. A mulher aspirava esse cheiro até que ficasse encrustado em cada célula dela. Isso a fazia feliz. Sua felicidade não era como a do resto, tinha uma pitada pitoresca de algo desconhecido e perigoso. Algo levemente felino. Ela não caçava suas presas, mas as seduzia até que viessem correndo aos seus pés. Era como um ciclo. Valerie se arrumava, escolhia uma vítima e a seduzia, fazia lavagem cerebral com um simples olhar. O sadismo de romances com prazo determinado, o gosto da tortura orgástica. No fim, ela se alimentava de caos. Via o trágico fim de cada um, como espectadora e vilã. Epifanias doentias e prazeres incomuns explodiam envolta dela, como pequenas bolhas de sabão chegando ao fim. O tempo parava, todos os humanos eram congelados numa fração de segundo, e ficavam assim até o ritual terminar.


Texto incompleto e antigo. Talvez eu o transforme em uma história mais complexa depois.