Com seus lábios ressecados, Valerie cuspia palavras ao vento. Pisava nas cinzas do seu cigarro, e depois se preparava para pisar em suas próprias emoções. Seu coração congelou com o tempo, todos os sentimentos foram guardados numa caixa e jogados à alto mar. Seus cabelo negros escondiam segredos tão obscuros quanto a natureza daquela jovem, dona de belos olhos verdes. Melodias suaves não a comoviam, filmes de drama não arrancavam sequer uma reação em sua alma. A única coisa que a fazia se sentir viva era a dor. E, ah, que dor deliciosa. Gemidos abafados se derretendo antes de chegar à ponta da língua, a adrenalinda borbulhando na corrente sanguínea, os cabelos da nuca se ouriçando lentamente. Lágrimas de prazer escorrendo nas suas bochechas suadas, criando a fórmula perfeita para o êxtase. Momentos carregados com um turbilhão de emoções, o calor da pele misturado ao ardor da mente. Todos os elementos virando um só. Invencível e frágil. Agridoce.
Era assim que Valerie gostava de viver, ignorando as regras e procurando epifanias no prazer masoquista. Todo dia ao acordar, encontrava um homem ou uma mulher diferente na sua cama, com cheiro de álcool e pecado. A mulher aspirava esse cheiro até que ficasse encrustado em cada célula dela. Isso a fazia feliz. Sua felicidade não era como a do resto, tinha uma pitada pitoresca de algo desconhecido e perigoso. Algo levemente felino. Ela não caçava suas presas, mas as seduzia até que viessem correndo aos seus pés. Era como um ciclo. Valerie se arrumava, escolhia uma vítima e a seduzia, fazia lavagem cerebral com um simples olhar. O sadismo de romances com prazo determinado, o gosto da tortura orgástica. No fim, ela se alimentava de caos. Via o trágico fim de cada um, como espectadora e vilã. Epifanias doentias e prazeres incomuns explodiam envolta dela, como pequenas bolhas de sabão chegando ao fim. O tempo parava, todos os humanos eram congelados numa fração de segundo, e ficavam assim até o ritual terminar.

Texto incompleto e antigo. Talvez eu o transforme em uma história mais complexa depois.